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15 anos sem Ayrton Senna PDF Print E-mail
Written by Administrator   
Wednesday, 29 April 2009 18:03

 

Neste 1° de maio de 2009 completam-se 15 anos em que o Brasil e o mundo perderam um dos maiores, mais emblemáticos, habilidosos e carismáticos pilotos da história do automobilismo mundial: Ayrton Senna da Silva.

Sua arte em pilotar conquistou admiradores em todas as partes do mundo e entre estes admiradores, um mito: O consagrado e aplaudido, o maior vencedor de todos os tempos (àquela altura, pelo menos): Juan Manuel Fangio. 

Ao longo dos anos em que Ayrton Senna esteve na Fórmula 1, a imensa admiração que um sentia pelo outro transcendeu os limites das pistas e tornou-se uma grande amizade – ou algo ainda maior.

 

O Diretor da Fundação Fangio, Eng. Luis Carlos Barragán e o jornalista Argentino José Eduardo Jesu Maria (que tem mais de 50 anos de automobilismo e de Fórmula 1) contam – com exclusividade para os Nobres do Grid – detalhes de alguns momentos detalhes de alguns momentos vividos entre estes dois gênios das pistas.

 

 

 

A admiração de Senna por Fangio.

 

 

 

Mônaco, 1990. Respeito e admiração de um pelo outro expressa em sorrisos. 

 

 

Ayrton Senna foi um vencedor ao longo de toda a sua carreira e o seu estilo empolgava o grande piloto argentino. Por seu lado, Senna tinha uma gana de vencer tamanha e o encontro de ambos em 1990, em Mônaco, aproximou-os definitivamente, propiciando, ao longo dos anos que se seguiram uma série de fatos e encontros que marcariam a vida de ambos e a de quem pode estar presente.

 

De certa forma, o Brasileiro deixava transparecer que seu desejo era mesmo se tornar tão grande quanto o seu ídolo argentino e, por outro lado, Fangio – nas palavras de Luis Barragán – via em Senna o legítimo herdeiro do legado que ele escreveu nas pistas.

 

Apesar de lamentar profundamente os incidentes ocorridos nos finais das temporadas de 1989 e 1990, Fangio nunca comentou ou tomou partido de nenhum dos contendores. Ele também tinha uma admiração pelo Francês Alain Prost e – certamente – não aprovava as atitudes dos pilotos naquelas duas corridas no Japão. Contudo, o que ele achava sobre aquilo ele jamais externou... nem em seu círculo mais próximo.

  

 

 

Austrália, 1990.

 

Aproveitando-se do fato de estar acontecendo o GP de número 500 da Fórmula 1 – que foi vencido por Nelson Piquet – e a presença de diversos campeões da categoria, já retirados das pistas, os jornalistas presentes reuniram alguns deles para uma foto que, além de histórica, mostrava como o Senna via seu ídolo, Fangio: Como o maior de todos.

 

Em pé: James Hunt, Jackie Stewart e Denny Hulme.

Sentados: Nelson Piquet, Juan Manuel Fangio, Ayrton Senna e Jack Brabham.

 

O campeonato daquele ano já estava decidido e foi o “capítulo final” de uma triste sequência de eventos envolvendo dois pilotos de altíssimo nível onde a esportividade e os princípios de lealdade foram esquecidos e os de competitividade extrapolados. Provavelmente isso explica a ausência de Alain Prost na foto (duas semanas antes Senna dava fim a disputa do campeonato com uma colisão premeditada – e anunciada – na primeira curva do GP do Japão).

 

Fangio, por sua vez, desde que parou de correr provas de Fórmula 1, jamais deixou de acompanhar as temporadas e os pilotos que surgiram ao longo dos anos mas a emoção que Senna despertava no grande pentacampeão era algo que ia além da admiração. Fangio considerava Senna um piloto especial e o tratava como um herdeiro, alguém capaz realizar algo fora do normal como ele realizara nos anos 50.

 

GP de San Marino, 1991.

 

A Ferrari não era nem sombra da equipe que terminara a temporada passada como o melhor carro da do grid e nem com toda a capacidade técnica do tricampeão Alain Prost estava sendo capaz de levar novamente os carros vermelhos de Maranello ao círculo dos vencedores e seus pilotos ao alto do pódio.

Desta feita Fangio estava no autódromo junto com Luis Barragán e outros membros da fundação Fangio e, durante aqueles dias, o piloto mostrara a seus amigos todos os arredores da região. Teve, alguns dias antes, mais uma oportunidade de encontrar-se com Senna em um dos eventos promocionais, mas sempre cercados de muita gente, pouco podiam conversar.

 

 

Senna e Fangio com Jack Brabham. 

 

 

A prova foi um verdadeiro desastre para a Ferrari. Na volta de apresentação, sob pista molhada, Prost perde o controle do carro, sai da pista, vai para a grama e nem sequer larga, frustrando as maiores esperanças da massa de mais de 100 mil pessoas que compareceram ao autódromo. Dada a largada, poucas voltas depois, Alesi também abandona por rodar ainda na segunda volta e assim, em menos de dez minutos de corrida, as portas dos boxes da equipe italiana já se haviam cerrado!

Decepcionado, o público começou a deixar as arquibancadas e as áreas de bosque onde se acumulavam para assistir a corrida.

A certa altura, pelo rádio, Senna pede que a assessoria de imprensa da equipe entrasse em contato com Fangio para que ele fosse ao pódio, entregar o troféu caso se consumasse a vitória da McLaren N° 1. Fangio ficou surpreso e honrado com o pedido... mas recusou. Disse que ele fora piloto da Ferrari e que ali era “território da Ferrari e que seria uma afronta aos italianos ele fazer isso”.

Os assessores entenderam a posição do piloto Argentino e, ao deixarmos o autódromo, seguindo pela estrada pudemos ver as pessoas caminhando ao longo do acostamento (a distância a se percorrer a pé é considerável para sair do autódromo) e quão cabisbaixos estavam os torcedores diante do fracasso da equipe naquela prova.

  

O Encontro em Buenos Aires, 1991.

 

 

Após o Grande Prêmio da Austrália de 1991, Senna veio a Buenos Aires encontrar com Fangio, sem nenhuma divulgação na imprensa. Ele queria conversar, desabafar, ouvir conselhos daquele que era seu ídolo nas pistas. Foram então jantar no restaurante de um grande hotel na cidade, no qual Senna se hospedara. Nestes lugares, claro, sempre existem contatos e jornalistas que esperam furos de reportagem e este era um grande furo. “Senna em Buenos Aires encontra-se com Fangio”. Contudo, quando alguns jornalistas chegaram ao hotel para registrar o encontro, Fangio pediu que os deixassem a sós para jantar e que, após o jantar eles apareceriam para umas fotos e umas breves palavras. Os jornalistas da imprensa escrita e televisiva lá presentes respeitaram o pedido do pentacampeão. 

Senna se mostrara naquele encontro uma pessoa angustiada, pressionada por ele e pela imprensa brasileira a continuar sendo o dominador do cenário e das provas de Fórmula 1. Contudo, a McLaren fora superada pela Williams e Senna, preterido pelo dono da equipe - Frank Williams - para ser um de seus pilotos na temporada seguinte.

Fangio, após ouvir isso, aconselhou o brasileiro a parar de ler os jornais e revistas que falavam sobre o assunto, sobre Fórmula 1. Dizia que este tipo de pressão, de comentários e cobranças só estavam lhe fazendo mal. Que ele tinha que se desligar daquele mundo e concentrar-se apenas no seu trabalho, sem as influências externas.

José Eduardo Jesu Maria, jornalista radicado em Córdoba, relembra uma frase importante que Fangio dera a Senna: “Dez anos na Fórmula 1, com toda esta pressão que os pilotos sofrem hoje, é tempo demais”. De uma forma sutil, como costumam fazer os Argentinos, Fangio alertava a Senna para o excesso de cobrança sobre ele e que aquilo era algo além da capacidade humana de lidar com aquilo.

Ao final do encontro, como prometido, eles posaram para algumas fotos (fotos estas tiradas pelo já falecido Juano Fernandez, fotógrafo que Senna chamava de "sua sombra") e uma rápida entrevista para a TV Argentina onde Senna apenas declarou ser um prazer e uma honra poder jantar com Fangio... nada mais foi dito. Alguns meses depois, quando da época do GP do Brasil, Senna recebeu as fotos que combinara com Juano: Uma, com dedicatória de Fangio e outra para ele fazer o mesmo para seu amigo e ídolo das pistas. Prometeu entregar a sua no dia seguinte mas o a entrega só ocorreu meses depois, quando do GP da Hungria. Esta foto (acima) foi ampliada e colocada ao lado da McLaren e do capacete em uma das mostras do Museu Fangio a pedido do próprio Fangio quando a recebeu.

 

  

Espaço dedicado à amizade entre Fangio e Senna no Museu Fangio em Balcarce, Argentina. 

 

 

 

 

São Paulo, 1993.

 

Na semana que antecedeu o GPdo Brasil, eles voltaram a se falar e, mais uma vez, Senna mostrava-se angustiado. Desabafando, dizia a Fangio que a diferença entre a McLaren e a Willians era enorme, que ele não tinha a menor possibilidade de disputar a corrida contra Prost, que não tinha como vencer. Fangio, novamente, aconselhou o Brasileiro a ter calma e confiança. Que deixasse de lado as cobranças da imprensa e não lesse os jornais. Que confiasse em si mesmo e, no final, disse: Se chover, você ganha esta corrida.

 

Senna e Fangio no Pódio em Interlagos. 

 

 

O que aconteceu na pista naquela tarde de 28 de março em Interlagos vai ficar gravado na mente de todos os que viram as imagens e mais ainda nos que lá estiveram presentes. A chuva, as pessoas, a vitória magistral de Senna, a invasão da pista, Senna carregado nos braços dos torcedores... algo nunca visto antes.

Enquanto liderava, no final da prova, Senna, pelo rádio, pedia insistentemente que Fangio fosse ao Pódio, entregar o troféu para ele, caso ele vencesse. Senna dizia que queria presenteá-lo com o troféu daquela prova. Fangio hesitou. Preferia não aparecer, mas acabou convencido de, ao menos, entregar o troféu a McLaren, que era a equipe vencedora. As pessoas estavam em êxtase e Fangio foi ovacionado quando chegou ao pódio com o troféu nas mãos.

              

O abraço de agradecimento e reconhecimento à sabedoria do mestre, amigo e referência. 

 

 

 

 

Após entregar a taça a Ron Dennis, foi cumprimentar os três vencedores da prova e neste momento Senna desceu do pódio, não se contendo de tanta felicidade, e abraçou Fangio como um filho abraça um pai. Fangio, emocionado, disse-lhe apenas: “Eu falei que você venceria na chuva. Confie em você e deixe as pressões de lado”. Senna repetia: “Obrigado, obrigado por tudo”... o Brasileiro não cabia em si.

Fangio deixou o pódio antes que Senna pudesse entregar-lhe o troféu e os dois não tiveram mais oportunidade de se encontrar naquele ano. Fangio já estava bastante debilitado e evitava longas viagens.

  

 

As mortes de Senna e Fangio.

 

Em 1994, Fangio estava bastante combalido em sua saúde e, assistindo a corrida em casa, Fangio teve o desgosto de ver o trágico acidente em Ímola naquele 1º de maio de 1994. Pressentindo o pior, pediu que desligassem a televisão e confidenciou aos poucos amigos, entre eles, Luis Barragán: “Ele morreu”! Acreditando ter sido impossivel sobreviver àquela colisão contra o muro de concreto.

A mesma sensação teve José Eduardo Jesu Maria, que narrava a prova para a TV Argentina: “Quando vi aquela poça se sangue na caixa de brita não tive dúvidas de que ele estava morto. Mas a direção de prova oficialmente disse que ele ainda estava vivo e a corrida continuou... tive que continuar a narração mas a sensação de desconforto era enorme”.

 

Fangio não compareceu ao funeral e, depois da morte de Senna, não assistiu mais a nenhuma corrida de automóveis.

 

No escritório do piloto brasileiro havia uma foto... uma única foto referente a Fórmula 1: A foto que Fangio autografara e enviara para ele após o encontro em Buenos Aires, em 1991.

Um ano e dois meses depois, em julho de 1995, o campeoníssimo Argentino deixava o convívio dos seus e sua história agora ficaria imortalizada nas mentes dos que conviveram com ele e nas dependências do Museu e da Fundação que leva o seu nome, na cidade de Balcarce, sua cidade natal.

 

Luis Barragán, uma pessoa que conviveu de perto nos últimos 20 anos de vida de Juan Manuel Fangio descreve com rara felicidade e contida emoção o que era a relação entre estes dois gênios das pistas: “O respeito e a admiração que um tinha pelo outro nas pistas atingiu um estágio tal que, mesmo com a pouca convivência, esta relação acabasse por deixar de lado o mito, o piloto, e passasse a ser pelo ser humano que um era para o outro”.

 

 

 

Nota dos Nobres do Grid.

 

Em 1997 os administradores do circuito de Donington Park inauguraram um memorial em homenagem a ambos. Para quem não sabe ou não se lembra (se é que é possível alguém esquecer), Senna conquistou uma de suas mais fantásticas vitórias neste circuito em 1993.

 

 

Quem, um dia, tiver oportunidade de visitar a Inglaterra e ir a Donington, uma foto em frente a este memorial é algo simplesmente imperdível.

 

Last Updated ( Thursday, 04 June 2009 00:12 )