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Acelerando com Gastão Fráguas PDF Print E-mail
Written by Administrator   
Saturday, 28 March 2015 06:51

E aí, pessoal, tudo bem?

 

Dando seqüência ao nosso projeto “Marvados do Grid” do kart, trago para vocês este mês uma entrevista com o Gastão Fraguas Filho, campeão mundial de kart na categoria Fórmula A em 1995, batendo na disputa ninguém menos que Jenson Button. Vocês irão conhecer mais de perto a carreira e a vida deste paulistano que no período de três anos aprendeu a pilotar um kart e foi campeão mundial, mesmo tendo começado com 14 anos de idade.

 

Vão entender também por que a carreira dele não decolou aonde todos esperavam que chegasse, conhecer seu trabalho como manager de pilotos e irão se surpreender com a sua competência em tudo o que faz.

 

Com a palavra, Gastão Fraguas:

 

O começo no kart.

 

“Sempre gostei de esportes. Jogava tênis e tive um relativo sucesso. No ano de 1992, estava estudando nos Estados Unidos quando meu primo Miguel Sacramento, que correu de kart nos anos 70 na mesma época que o Ayrton Senna, criou o projeto da Fórmula Pakalolo, uma categoria com motores iguais e baixo custo que tinha o objetivo de dar oportunidade aos pilotos a brigar em igualdade de condições pela vitória.

 

O início de tudo, com o experiente Maurão, que continua na ativa até hoje.

 

Ele falou para o meu pai: ‘Acho que o Gastão tem tudo pra dar certo no kart, porque ele adora esportes e é um atleta’. Convite aceito, voltei para o Brasil e ele já tinha me comprado capacete, macacão etc. e me encaminhou ao Mauro Dias, o ‘Maurão’, para que eu começasse a treinar. Foi assim que tudo começou.”

 

O trabalho com Maurão.

 

“O meu primo me levou para o Maurão e disse pra ele: ‘treina ele, que o moleque leva jeito!’ Após a primeira sessão de treinos, o Maurão não ficou nem um pouco impressionado, virou para o meu primo e disse: ‘você tá enganado! Ele não leva jeito não...’ Mas eu me dediquei bastante, e apliquei tudo aquilo que ele me falava na pista. Costumo brincar que nunca tomei um cascudo do negão!

 

Gastão Fráguas e Maurão fizeram uma parceria de praticamente uma década pelos Kartódromos do mundo.

 

Ele me ensinou tudo... não somente o lado técnico, mas o lado humano também. Por isso, com três meses de kart eu já estava ganhando a minha primeira corrida na Copa Pakalolo. Meu companheiro de equipe era o Cacá Bueno, que já era um piloto experiente. Mesmo assim, disputei o campeonato com ele até o final, e preferi ficar com o vice-campeonato para não ter que subir de categoria. Participei ainda do Campeonato Panamericano de Kart, que aconteceu em Interlagos no final do ano e fiquei na quinta posição. Um ótimo primeiro ano de kart...

 

O ano de 1993 foi melhor ainda. Venci o Campeonato Paulista de Kart na Categoria Novatos, a Copa Pakalolo na Categoria Masters e ainda fui Campeão Campineiro de Kart. No meio do ano, eu  participei do Mundial de Kart em Laval, na França, e tive um acidente que quebrou meu pé esquerdo e rompeu os ligamentos.

 

Em seu ano de estréia, Gastão Fráguas já foi destaque na Copa Pakalolo em 1992.

 

Estava vindo bem em uma das baterias classificatórias, e na reta principal, que é enorme, eu vinha no vácuo do kart da frente para  ultrapassá-lo na linha de chegada, e encontrei os karts da frente mais lentos, entrando no parque fechado. Meu freio já vinha baixando nas últimas voltas, mas naquele momento eu fiquei totalmente sem freio... a pancada foi feia. Tive que ficar 45 dias de muleta, e se fosse pelos médicos, eu não teria participado da última corrida do ano, mas eu precisava do resultado para ser campeão. O Maurão fez um calço no freio e eu fiz a pole e ganhei a corrida!”

 

O Mundial de Kart de 1995.

 

“Em janeiro de 1995, eu decidi ir para a Europa morar lá e disputar os principais campeonatos de kart do mundo, pela equipe Tonykart. Fui vice-campeão europeu, atrás do fenômeno da época, Giorgio Pantano, que já era contratado pela AMG. Eu estava meio ‘puto’, porque toda corrida ele ganhava e eu ficava em segundo!

 

Em 1995, Gastão Fráguas levava o Brasil à conquista de seu segundo título mundial de Kart.

 

Eu era um dos favoritos ao título, e antes do Mundial fiz diversos testes de pneus. Sabia que na última bateria teria que poupar os pneus para poder atacar nas últimas voltas, e foi o que fiz. O Button e o Limattainen vinham brigando pela liderança e eu vinha perto, segurando um pouco o ritmo. Na penúltima volta, aproveitei uma dividida dos dois e passei-os em duas curvas em seqüência... eles brigaram mais um pouco e isso foi suficiente pra eu abrir uma vantagem na liderança e vencer o campeonato.” Veja a conquista do mundial no link abaixo.

 

https://www.youtube.com/watch?v=0m-msfQOv9U

 

Ídolos e principais adversários.

 

“Não tive ídolos no automobilismo, e no kart percebi que poderia disputar de igual para igual com qualquer piloto do grid.

Meus principais adversários foram o Luciano Burti aqui no Brasil e o Giorgio Pantano na Europa. Era com eles que eu geralmente batia roda.”

 

A transição para o automobilismo.

 

“Eu comecei tarde no kart, com 15 anos de idade. Em três anos, já era campeão mundial. Meu ‘meca’ na Tonykart foi o pai do Jarno Trulli, na época um fenômeno do kart que estava indo para a Fórmula 3. Ele me disse que não conhecia ninguém que em tão pouco tempo tivesse conseguido vencer um Mundial. Mas eu e o meu pai decidimos que eu ficaria no kart pelo menos até 1997, antes de ir para o automobilismo.

 

Campeonato Mundial de Kart, 1995: Gastão Fráguas no centro do pódio - Comemoração.

 

Hoje, fazendo uma análise sobre as decisões tomadas, tenho certeza de que não houve um planejamento adequado para a minha ida ao automobilismo. Fui direto para o Campeonato Europeu de Fórmula Renault, a categoria escola mais difícil do mundo, com pouquíssimos treinos e preparação. Se você for analisar as últimas participações de brasileiros no Europeu de Fórmula Renault, mesmo aqueles que já estavam em seu segundo ou terceiro ano de automobilismo e correram por equipes boas, foram poucos os que conseguiram andar entre os 10 primeiros. Enfrentei muitas dificuldades, apanhei bastante.

 

Já no segundo ano, fui bem competitivo, andando sempre entre os 6 primeiros em todas as corridas, mas eu já tinha ‘perdido o bonde’. O ideal seria eu ter feito mais um ano no Europeu de F-Renault, pra tentar ser campeão, mas foi aquela época do estouro do dólar e a minha família não tinha como bancar mais uma temporada na Europa. Assim, fechei com a Amir Nasr Racing pra ser o terceiro carro no Campeonato Sul Americano de Fórmula 3, junto ao Vitor Meira e ao Juliano Moro.

 

Quando decidiu investir na carreira como piloto, Gastão Fráguas correu de F. Renault e F3 Sudam.

 

Sem condições de ter o melhor equipamento e atenção da equipe, os resultados ficaram longe daquilo que eu precisava. Ainda fiz mais uma tentativa junto com o Darcião (Dárcio dos Santos, proprietário da equipe Prop Car e tio de Rubinho Barrichello) para o ano de 2001, mas logo vi que não teria condições de disputar o título e decidi que o melhor seria parar.”

 

O trabalho como manager de pilotos.

 

“Depois de tudo o que passei como piloto, e as dificuldades que enfrentei por falta de planejamento de carreira e por não ter alguém por trás me auxiliando, decidi criar a GP Management, para gerir carreiras de pilotos, aproveitando todo o meu conhecimento e também contatos na Europa.

 

Meu primeiro piloto foi o Rubinho Carrapatoso, que tinha acabado de disputar o Campeonato Inglês de Fórmula Ford na Classe B, conseguindo terminar em um bom quarto lugar na tabela final de 2001. Ele tinha ótimos convites para o ano de 2002, mas não tinha o dinheiro pra pagar uma temporada em nenhuma das equipes que o convidaram. Ele iria voltar para o Brasil e ficar correndo de kart... Consegui que ele corresse mais 3 anos na Europa, SEM DINHEIRO!

 

Um dia companheiro de pista, depois, Manager de outro campeão: Rubens Carrapatoso.

 

Quando eu falo isso hoje, pouca gente acredita... Tenho muito orgulho do que conquistamos juntos. No final de 2002, arrumei pra ele um teste de F-Renault Italiana na equipe Alan Racing, onde trabalhava um engenheiro amigo meu, que havia sido meu engenheiro na Tatuus. Ele queria que pagássemos pelo teste, mas eu disse: ‘negativo!’ Ele disse: ‘tudo bem, então me mande o piloto’.

 

O Rubinho foi lá e deu pau em todo o mundo, foi o mais rápido do teste. Os caras não acreditavam! O teste tinha pilotos da RC Motorsports, Prema, todas as equipes grandes da F-Renault, e ele cravou todo o mundo. O pessoal da equipe ficou doido e disseram que se a gente conseguisse o budget, a vaga seria dele. Conseguimos 1/5 e mesmo assim eles toparam! Depois da metade do campeonato, estávamos em terceiro ou quarto lugar e com chances de vencer o título, mas o dinheiro acabou.

 

O dono da equipe ainda bancou o restante do campeonato, mas como não tínhamos condições de testar, colocar peças novas etc. fomos ficando para trás e terminamos o ano em  sexto, ainda assim um excelente resultado. Ele se destacou tanto, que o filho do Giancarlo Minardi nos procurou para que assinássemos um contrato com ele para levar o Rubinho para a Fórmula 1, mas não tínhamos verba para isso.

 

Para 2004, consegui para ele uma vaga no Inglês de F-Renault, nos mesmos moldes do que havíamos feito com a Alan Racing no Italiano, e ele andou super bem novamente. Para 2005, conseguimos uma vaga na Fórmula 3 Européia, com alguns ótimos resultados, além de encaixá-lo no projeto da equipe brasileira na A1 GP. Tudo isso, repito, SEM DINHEIRO!

 

Um dia, rival na pista de Luciano Burti. Com uma sugestão, veio a ser Manager de Cesar Ramos.

 

Meu último piloto foi o César Ramos. No ano de 2009, eu estava participando do programa ‘Linha de Chegada’ do Reginaldo Leme, na SPORTV, junto com o Lito Cavalcanti e o Luciano Burti, e o tema do programa era ‘como levar um piloto para a Fórmula 1’. O pai do César entrou em contato com o Burti pensando que ele talvez fosse ajudá-lo na carreira do filho, e após o programa o Burti me procurou e disse: ‘você não teria interesse em trabalhar com ele? Eu estou totalmente focado na minha carreira e não tenho tempo pra me dedicar a isso.’

 

Conversei com o pai do César, almoçamos juntos e acertamos a nossa parceria. Ele vinha de uma boa temporada de F-Renault e estava fazendo o Europeu de Fórmula 3 na equipe Manor Motorsports no ano de 2009, com péssimos resultados. Ele já estava naquele ponto em que o piloto começa a duvidar da sua própria capacidade... Analisando a situação, sugeri a eles que abortassem a participação nas últimas duas provas, já que ele não tinha a mínima chance no campeonato e conseguissem um ‘fôlego’ financeiro para 2010. Eles toparam, e eu sugeri que no ano seguinte déssemos um passo para trás: que competíssemos no Campeonato Italiano de Fórmula 3.

 

O resultado foi que o César foi campeão, o piloto brasileiro que mais se destacou no exterior em 2010 e ainda que ele fez um teste com a Ferrari na Fórmula 1, como prêmio pela conquista, em Vallelunga. Para 2011, fechamos com a Fortec na World Series by Renault (WSR), último passo antes da Fórmula 1, junto com a GP2. Logo na estréia, o César fez a pole, mas depois acabou batendo na corrida. Para um primeiro ano, ele foi muito bem, andando sempre rápido, fazendo outra pole etc., mas a segunda metade do campeonato acabou não tendo bons resultados, e para 2012 nós precisávamos arrumar 1 milhão de euros para que ele estivesse no grid.

 

Gastão Fráguas e Cesar Ramos. Uma parceria de muito sucesso.

 

Ele ficou sete meses parado... Na quarta ou quinta etapa (quinta etapa - Spa) um piloto da equipe Lotus na WSR (Richie Stanaway) se machucou em um acidente sério, entrei em contato com o team manager deles, que já tinha uns 10 pilotos querendo a vaga, e consegui o lugar para o César, sem precisar levar nada de dinheiro.

 

Mesmo com tanto tempo parado, ele foi rápido logo de cara e fez o quarto tempo em Nürburgring, mas bateu o carro na corrida. Na segunda, largou em quinto, mas bateu novamente. Assim, quando o piloto da Lotus se recuperou, ficamos sem a vaga e não tínhamos um bom resultado para apresentar. O César decidiu ir correr de GT em 2013 e encerramos a nossa parceria, pois eu vi que não havia mais nada que eu pudesse fazer por ele.

 

Dei uma pausa de dois anos neste trabalho de gerenciamento de carreiras, mas em 2015 estou voltando com o Caio Collet, que parece ter o potencial para ser um grande campeão no futuro, e pela primeira vez terei a oportunidade de pegar um piloto diretamente do kart.”

 

O que está fazendo atualmente.

 

Esse cara parece que tem um dia de 48 horas! Vejam o que ele faz atualmente: “Bem, atualmente eu trabalho como team manager da equipe do Alex Barros no Campeonato Brasileiro de Motovelocidade. Como disse anteriormente, também vou cuidar da carreira do Caio Collet a partir deste ano, e tenho um restaurante. Além disso, sou pai de uma adolescente de 12 anos, e todo o tempo livre que tenho procuro reservar para ela.”

 

Gastão Fráguas na equipe Alex Barros Racing, na Moto 1000 GP no Brasil.

 

Agradeço imensamente à paciência do Gastão, que conversou longamente comigo no telefone e foi muito atencioso e prestativo. Meu respeito e admiração por ele só aumentaram após esta entrevista.

 

No mês que vem, teremos conosco nosso último campeão mundial de kart, o Rubinho Carrapatoso. Aguardem!

 

Abraços,

 

Rodrigo Bernardes


Last Updated ( Thursday, 02 April 2015 06:19 )